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MonitoR7 Documentário sobre facada acusa sem provas e usa informação falsa

Documentário sobre facada acusa sem provas e usa informação falsa

Produção é ligada a site de esquerda, denunciado na operação Lava Jato

  • MonitoR7 | Do R7

Jornalista Joaquim de Carvalho

Jornalista Joaquim de Carvalho

Captura de tela do documentário

Foi lançado este mês um documentário que já no nome diz a que se propõe: “Bolsonaro e Adélio – uma fakeada no coração do Brasil”. Dirigido e conduzido pelo jornalista Joaquim de Carvalho, o trabalho junta as palavras “facada”(em português) e “fake”(em inglês, com sentido de falso/a), para criar um trocadilho.

O objetivo é indicar que foi falsa a facada que Adélio Bispo deu em Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência da República, em 6 de setembro de 2018. O jornalista não chega a dizer isso nas quase duas horas de documentário. Talvez porque saiba que os elementos que ele apresenta para embasar a tese são muito frágeis. O máximo que Carvalho faz é usar o tempo todo o termo “suposta facada”.

Um dos episódios que ocupam mais tempo do documentário se refere a um fotógrafo que teria sido distraído no exato momento em que ocorreu a facada. O jornalista se lamenta e para ele, do ponto de vista profissional, a perda do flagrante deve ter sido importante.

O documentário, no entanto, não explica porque a foto desse fotógrafo específico seria tão essencial para esclarecimento dos fatos, quando nas mesmas imagens em que se apresenta a “distração” aparecem dezenas de pessoas com celulares e máquinas, registrando segundo a segundo da visita do candidato.

Em outro trecho, o jornalista usa um vídeo, que ele afirma ser de um policial militar falando para Adélio: “Calma cara, agora não dá”. O vídeo mostra as costas de dezenas de pessoas, durante a confusão em volta de Bolsonaro, na passagem dele pelo Centro de Juiz de Fora.

Não se sabe como o jornalista conseguiu identificar quem falou e para quem falava, no meio daquela confusão. A imagem não mostra e se ele tem alguma informação sobre isso, não colocou no documentário.

O documentário ainda coloca em dúvida a idoneidade de dois médicos. O primeiro, Dr. Paulo Gonçalves, operou Jair Bolsonaro, depois da facada, na Santa Casa de Juiz de Fora. O documentário usa a informação de que o médico seria um entusiasta de Jair Bolsonaro e teria comparecido a um dos eventos da campanha, de camiseta amarela.

Quem dá essa informação é o presidente da Associação Comercial de Juiz de Fora, Aloísio José de Vasconcelos Barbosa. Mas o mesmo entrevistado afirma que, depois da facada, o médico foi acionado para atendimento, junto com a equipe da Santa Casa. Ou seja, foi acionado porque é cirurgião no hospital para onde Jair Bolsonaro foi levado, precisando de cirurgia. Ele atendeu um chamado médico e não político.

O outro médico que tem sua conduta colocada em suspeita pelo jornalista é o Dr. Antonio Macedo, que na época trabalhava no Hospital Albert Einstein. Primeiro, Joaquim de Carvalho levanta suspeitas contra o hospital, por ter insistido em receber Jair Bolsonaro, por já ter atendido Fabrício Queiroz e por, segundo o jornalista, ter se recusado a entregar o prontuário de Bolsonaro à Polícia Federal.

Depois, o jornalista dirige suas desconfianças para o médico, levantando suspeitas por ele ter deixado de atender no Einstein e ter ido trabalhar em outro hospital privado de São Paulo. Como se um médico, como qualquer outro profissional, não pudesse mudar de trabalho no caso de receber uma proposta profissional melhor. E como se o fato de Jair Bolsonaro seguir o médico em seu novo local de trabalho não derrubasse a tese anterior, de suspeição do Hospital Albert Einstein.

Nessa questão de saúde, aliás, Joaquim de Carvalho demonstra no documentário que dá valores diferentes às informações que recebe em “off” (com pedido para que o autor da informação não seja identificado).  Dependendo não da qualidade da fonte, mas da informação que ela fornece.

Ele gravou na frente da Santa Casa de Juiz de Fora, afirmando que profissionais de saúde da Santa Casa disseram a ele, em off, que “Bolsonaro chegou aqui com um ferimento grave no abdômen”.  Na sequência, ele desvaloriza essa informação, ao dizer que tentou confirmar o fato com o presidente da Santa Casa, mas não foi atendido.

Mais à frente, para demonstrar a teoria dele de que as cicatrizes no corpo de Jair Bolsonaro “mudaram de lugar”, ele cita uma médica, que teria informado em off que Adélio não teria ponto de apoio para fazer uma perfuração de 15 centímetros em Bolsonaro, como consta do laudo. A médica teria procurado o jornalista para falar do assunto, quando soube do documentário.

Ou seja, o depoimento de vários profissionais de saúde (é assim que o próprio jornalista os nomeia) sobre algo que eles teriam visto diretamente, foi desconsiderado. Já o depoimento de uma médica que não estava no local e nem examinou o paciente, é considerado importante. Mesmo que ela certamente tenha dado o depoimento baseada no que viu por vídeos. E sobre um assunto que não é da sua especialidade (as condições que Adélio tinha para desferir a facada).

O foco maior do documentário, no entanto, está no fato de Adélio Bispo ter treinado tiros no mesmo estande frequentado por Carlos Bolsonaro em Florianópolis. O jornalista foi até o local, reconstituiu declarações, levantou questionamentos sobre a capacidade de Adélio pagar pelo treinamento e demonstrou que de início a responsável pelo estande mentiu sobre o período em que Adélio esteve no local. Tudo muito detalhado.

A questão é que tudo o que ele diz já foi relatado na imprensa. E boa parte das informações são públicas. O próprio Adélio informou a presença dele no estande de tiros, através do Facebook. Carlos Bolsonaro nunca escondeu que ele e o irmão Eduardo frequentam o local. Aliás, como Joaquim mesmo afirma na sua obra, o estande faz questão de mostrar a presença dos Bolsonaro em suas redes sociais e em imagens no próprio local.

A verdade é que muito do que é apresentado no documentário se baseia no que saiu na imprensa. Inclusive com o uso de imagens. Outra parte, o próprio Carvalho afirma, vem dos inquéritos produzidos pela Polícia Federal, durante a investigação da facada e da atuação de Adélio Bispo.

Há uma outra informação, no entanto, que a imprensa não apresentou e o documentário de Joaquim de Carvalho traz. Carvalho afirma que a imprensa só destaca o fato de Adélio ter sido filiado ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e que isso é usado por bolsonaristas. Em contraponto, o jornalista apresenta uma carta de Adélio pedindo a desfiliação do PSD (Partido Social Democrático).

Joaquim de Carvalho afirma, textualmente: “o último partido dele é o PSD do Kassab... isso nunca foi falado. Porque toda a imprensa comprou a narrativa que foi falada”. Na verdade, a imprensa profissional não usou essa informação porque sabe que ela é falsa.

No inquérito da Polícia Federal, o próprio Adélio afirma que considerou se filiar ao PSD, depois desistiu e pediu em carta à Justiça Eleitoral uma certidão que comprovasse que ele não era filiado a nenhum partido político. Certidão que ele obteve. Ao procurar a justiça eleitoral, ele levou o pedido de desfiliação, caso alguém tivesse inscrito o nome dele no PSD, à revelia.

A carta apresentada no documentário, portanto, não demonstra nada, além do estado mental em que Adélio Bispo já se encontrava naquele momento.

Produzido em boa parte com informações copiadas da imprensa ou do inquérito da Polícia Federal, o documentário busca chegar a uma conclusão diferente. Uma conclusão explícita no título, mas não nas falas do jornalista.

O raciocínio que encerra a produção, aliás, é justamente esse. A PF deveria reabrir a investigação, porque há “pistas” de que o que ocorreu em Juiz de Fora teria sido planejado para beneficiar a campanha de Jair Bolsonaro.

Joaquim de Carvalho não usa a palavra “prova” e nem sequer “indícios”. Ele mesmo desqualifica o que conseguiu na sua investigação do tema. E é difícil enxergar no que ele apresenta mesmo algo que possa ser classificado sequer como “pista”.

O documentário foi produzido para o canal “TV 257”, da página “Brasil 247”, criada em 2011, pelo jornalista Leonardo Attuch. Em 2015, como parte da operação Lava Jato, o lobista Milton Pascowitch afirmou, em delação premiada, que a empresa dele, Jamp Engenheiros, repassou 180 mil reais à época para a Editora 247 Ltda, a pedido de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores(PT).

Segundo Pascowitch, o valor teria sido repassado para dar “apoio” à publicação. A Editora 247, à época, respondeu que foi contratada pela Jamp Engenheiros para “produção de conteúdo sobre o setor de engenharia” e que os serviços teriam sido “prestados e pagos, com o recolhimento de todos os impostos devidos”.

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