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MonitoR7 Tiradentes, um bode expiatório elevado a mártir da Independência

Tiradentes, um bode expiatório elevado a mártir da Independência

Grupo que assumiu o poder na Proclamação da República, quase cem anos após sua morte, tornou Joaquim José da Silva Xavier herói nacional, mas sua história não mostra tamanha relevância

  • MonitoR7 | Marcos Rogério Lopes, do R7

Criação do mito associou Tiradentes à figura de Jesus

Criação do mito associou Tiradentes à figura de Jesus

Halley Pacheco de Oliveira/Wikimedia Commons

Há 230 anos morreu enforcado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um representante das patentes baixas do Exército do fim do século 18 punido pelo império português e alçado intencionalmente a mártir da Independência do Brasil.

A história do alferes é composta de muitas simplificações e meias verdades, mas isso não impediu que ele ganhasse feriado nacional, fosse tema de samba-enredo campeão no Carnaval do Rio de Janeiro e virasse nome de ruas e de cidade no país. 

Para começar a revisitação ao mito, ele não era sequer o líder do movimento que o projetou, a Inconfidência Mineira, revolta que defendia a derrubada do poder da monarquia em troca de uma república... em Minas Gerais.

Não era, portanto, uma pretensão pensada para o país inteiro, como conta o escritor e jornalista Laurentino Gomes em seu último livro, Escravidão - Volume II.

"O objetivo da conspiração era aproveitar o clima de apreensão e revolta reinante entre os moradores para instigar um grande motim, no qual Minas Gerais se declararia uma república independente de Portugal. Esperava-se também que, uma vez proclamada a independência, outras capitanias, como Rio de Janeiro e São Paulo, aderissem à insurreição."

Tiradentes e seus aliados não buscavam a independência do Brasil, até porque na época o conceito de unidade do país era bastante precário, nem tinham grandes aspirações sociais ou humanistas.  

A insurreição nasceu de um grupo da elite da então capitania de Minas Gerais e tinha como principal propósito evitar que seus participantes fossem punidos por causa das dívidas que tinham com o império português.

"A Coroa estava decidida a cobrar todas as dívidas e obrigações atrasadas de seus súditos na capitania. A decadência na produção de ouro impedia que essas determinações fossem cumpridas. Todos os conspiradores reunidos naquela noite em Vila Rica eram grandes devedores e tinham muito a perder caso as ameaças se concretizassem", diz Laurentino Gomes.

Os conspiradores, quase todos proprietários de escravos, também não conseguiram chegar a um consenso sobre a opinião que tinham sobre o fim da exploração dos negros e descartaram o abolicionismo entre as propostas da Inconfidência Mineira.

Tiradentes foi o único assassinado pelos portugueses após o coronel Joaquim Silvério dos Reis, o tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro do Lago e o português Inácio Correia de Pamplona delatarem os inconfidentes em troca do perdão de suas dívidas com a Real Fazenda.

Como indício de que Joaquim José da Silva Xavier não era o principal expoente do grupo decidido a tomar o poder em Minas está o de que o primeiro governante, observa Laurentino Gomes, seria o poeta e desembargador Tomás Antônio Gonzaga.

Cabia a Tiradentes, dizem registros do período, a missão de divulgar as ideias libertárias antes do levante e o de instigar a rebelião nas ruas de Vila Rica no dia em que esperavam tomar o poder.

Bode expiatório

Se não era o líder, por qual motivo sobrou para o alferes a pior condenação?

A explicação, segundos os historiadores, pode ser a de que, apesar de estar longe de ser pobre (ele era proprietário de seis escravos), Tiradentes era o mais humilde daquele grupo, razão pela qual foi o único condenado a pena de morte.

Ele foi enforcado, esquartejado e teve a cabeça pendurada em um poste de uma praça da cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica, em 21 de abril de 1792, após a condenação pelo crime de lesa-majestade. A barbaridade tinha a intenção de usá-lo como exemplo do que aconteceria a quem não aceitasse as ordens portuguesas.

O jornalista Eduardo Bueno, na obra Brasil, uma História, detalha os objetivos de Portugal em usá-lo como bode expiatório, termo utilizado quando alguém leva sozinho a culpa por crimes cometidos por várias pessoas. Ao mesmo tempo em que condenou Silva Xavier com a punição máxima, a corte europeia perdoou ou amenizou a pena de todos os outros inconfindentes. 

"Para a Coroa, o alferes despontava como a vítima ideal: primeiro, era alguém com todos os ressentimentos de um típico “revolucionário francês”. Depois, não era ninguém: “Quem é ele?”, perguntara uma carta régia enviada de Lisboa ao desembargador Torres, juiz do processo. “Não é pessoa que tenha figura, nem valimento, nem riqueza”, foi a resposta. Além do mais, quem levaria a sério um movimento chefiado por um simples Tiradentes? Enforcá-lo e esquartejá-lo, portanto, teria o efeito máximo como advertência e o mínimo como repercussão."

A patente de alferes do Exército também mostrava a falta de prestígio do herói atual. 

"Órfão de pai e mãe desde os dez anos, Tiradentes fracassara em tudo na vida: fora, sem sucesso, tropeiro, minerador e dentista, até que, em dezembro de 1755, alistou-se na Companhia dos Dragões. Em 14 anos de carreira, porém, recebeu apenas uma promoção, tendo estacionado no posto de alferes (equivalente, hoje, ao de tenente). Em 1787, desgostoso com sua situação, pediu licença da tropa e mudou-se para o Rio, onde, sem outra alternativa, voltou a trabalhar como dentista. Foi então que conheceu José Álvares Maciel, cujas ideias republicanas e separatistas muito o influenciariam", cita Eduardo Bueno.

Tiradentes, na verdade, era barbeiro

Até a afirmação de que o personagem era dentista entra como uma meia verdade ou simplificação histórica.

Em 1792, ano de sua morte, sequer havia no Brasil o registro da atividade, oficializada por aqui apenas em 1800.

Tiradentes retirava dentes, é fato, mas como barbeiro, profissão que na época ia além de fazer a barba dos clientes. 

Segundo texto no site do Conselho Federal de Odontologia, o barbeiro do século 18 "além de cortar e pentear os cabelos e barbear, fazia curativos em vários tipos de machucados e, operações cirúrgicas pouco importantes. Por terem adquirido grande habilidade manual, passaram a atuar na boca, fazendo também extrações dentárias, porque muitos cirurgiões, por receio e desconhecimento, não intervinham".

Um mito criado pelos republicanos

A historiadora Lilia Schwarcz diz que Tiradentes foi transformado em herói quase um século após seu assassinato, na Proclamação da República, em 1889. 

"A ideia de festejar e destacar a importância da Inconfidência cresceu no começo da República, quando a figura de Tiradentes foi elevada como herói cívico e religioso", afirma a escritora em texto publicado em suas redes sociais. 

"Não por acaso, e como não havia qualquer iconografia dele, sua imagem passou a ser associada crescentemente à de Jesus Cristo: um homem branco, cabelo nos ombros, túnica branca e crucifixo no pescoço. Nasce, assim, o primeiro herói popular republicano, um personagem de origem europeia cívico mas com claro viés religioso (atributos que vão guiar dali em diante o surgimento de novos personagens da história brasileira)", acrescenta Lilia Schwarcz.

No livro, lançado em 2020, Em Busca de um Rosto – A República e a Representação de Tiradentes, o professor André Figueiredo Rodrigues, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), e a historiadora Maria Alda Barbosa Cabreira, mostram como o alferes teve sua imagem construída de acordo com os interesses de grupos republicanos da segunda metade do século 19.

“Em linhas gerais, ele aparecerá como um homem de olhar cândido, vestes brancas, com um crucifixo no peito e cabelos soltos até os ombros”, diz Rodrigues ao site da Unesp.

Homenagens

No fim de 1889, os republicanos, decididos a homenagear o eleito a mártir Joaquim José da Silva Xavier, fizeram uma visita à casa do padre Carlos Correia de Toledo e Melo, onde teria sido tramada a Inconfidência Mineira.

A cidade, conhecida até então como Vila de São José, mudou de nome para Tiradentes em 6 de dezembro daquele ano. Essas informações estão na página da prefeitura do município, um dos principais destinos históricos do país.

Em 1984, São Paulo inaugurou o Conjunto Habitacional Cidade Tiradentes, um dos maiores bairros da capital paulista.

Segundo levantamento do Correios, feito em 2012, Tiradentes era o 42º nome mais usado em nomes de vias do Brasil: 384 ruas tinham essa nomenclatura.

Em 1949, a escola de samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, levou para a avenida o enredo Exaltação a Tiradentes.

"Joaquim José da Silva Xavier/ Era o nome de Tiradentes/ Foi sacrificado pela nossa liberdade/ Este grande herói/ Pra sempre há de ser lembrado", cita a letra da música vencedora do Carnaval carioca daquele ano.

Em 9 de novembro de 1965, o primeiro presidente da ditadura militar, marechal Castelo Branco, decidiu reforçar o patriotismo brasileiro ao tornar feriado nacional o dia 21 de abril.

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